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Olha, eu gostava de propor uma coisa para a manhã, que é um jogo, tenho um saco cheio de pequenas coisas que eu encontrei e que estão partidas ou que são sobras de alguma coisa. E eu gostava de fazer uma espécie de micado com isto. O micado é aquele jogo dos pauzinhos, pões os pauzinhos assim todos juntinhos e depois largas e eles caem de uma forma desordenada e ao acaso.

Depois tens que tirar os pauzinhos sem mexer os outros. E no caso, eu tenho um saco com várias coisas que é tipo um resto de fio, um resto de cesto, um brinco sem o par, uma pulseira já muito desgastada, uma pinha, uma pedra, uma concha, coisas assim. E depois a ideia é espalhar aqui, abrir o saco e deixar os objetos de forma desordenada e tentarmos fazer um micado.

E é um jogo que está sempre a perseguir-me e que eu faço várias vezes, mas que nunca tem lugar para ser performance. Será que a gente podia adicionar algumas coisas ao meu saco? Claro. Isso que tu estás a dizer fez-me lembrar o início de um livro, que eu não me lembro, mas que começa com uma imagem de uns objetos que foram encontrados dentro de uma, como se chama aquele bicho que tem tipo bigode assim, é tipo uma foca, uma corça, uma lontra, é isso, morsa.

E no museu estão vários objetos que estavam dentro dela, e aí o início do livro é todo imaginar a relação improvável desses objetos, como é que eles foram parar dentro dela e depois dentro do museu, e fazer … traçar umas linhas assim de pra frente pra trás de cada objeto desses. Será que a gente tem objetos dentro do corpo? Será que algum de nós, alguma de nós, tem objetos dentro do corpo? Eu fiz uma cirurgia, então não tenho muita postura. Na parte que retiraram o penso, depois deixaram lá uma costura.

Um fio. Um fio. E a gente olhou em vez de uma obra.

Aí eu saio. Todos nós também temos aventuras, sonhos, né? Os dentes? Eles estavam no polo, a gente. Mas o que a gente está chamando de objeto? Porque assim, outros materiais, outros seres, com certeza a gente tem dentro do corpo, mas o objeto seria já uma coisa composta.

É. É talvez uma matéria que não seja orgânica. Eu tenho um diu. Um diu? Diu.

Eu tenho agora um diu. Eu tenho um diu comigo.

Eu estou ativado agora. Eu estou fazendo um exercício. Eu já estou ativado.

É um diu. Sabes o que é um diu? Sim, é aquele método de contracepção. Você sabe o que é um diu? Sim, é um diu que é um diu que é um diu que é um diu que é um diu.

Não, mas eu acho que se você trouxer o saco, a gente poderia... A gente não vai dar... Pois é, eu não estou…. Então pronto. Vocês vão ser as nossas sobras.

Pronto, é isso. Vamos ficar na imaginação. É sobre isso.

Eu também queria colocar aqui na conversa a relação de sobra com fantasmas, ou a relação de sobras com restos e com coisas que ficaram ausentes. Só um ponto. Sobra com ausência.

Como ausência ou também como fantasma. Ou seja, porque as sobras não necessariamente são materiais. Não.

As sobras podem ser coisas que nunca aconteceram. Estão condicionando as minhas necessidades. Claro que essas sobras são mais difíceis de descrever, apontar ou de pronto contornar, mas elas também ocupam este armazém, que ficam poucas vezes no visível.

Mas acho que há sempre algo em potencial. Sim, por acaso agora estamos de olhos fechados. E... O que sou? Para focar.

Na forma como a gente vê todas as coisas que estamos focando. Eu acho que quando a gente entra no estúdio, a gente está sempre acompanhada de muitos fantasmas, de várias naturezas. É tipo as nossas companhias.

Várias, tipo, um monte de magas. Os animais, os fantasmas, me disseram que eu devia ter sido uma prática e não vou ser nunca mais. Ah, como? Que... Para os fantasmas, eles me disseram que eu devia parar de realizar uma prática, que já não vai ser nunca mais.

E tu podes contar a prática? É uma prática com a personagem, que a gente chamamos os nomes de trans mortas se tivermos os seus nomes. É uma lista e nós chamamos... E elas nos disseram que não... Não, não, não, não, não.

Ou seja, faz pensar naquilo que a gente já falou sobre coisas que precisam permanecer também em outros planos. Sim, mas não se pode dizer que os seus nomes não são importantes, mas que esse calar tende a ficar em um outro plano mais inconsciente. E talvez justamente pela importância que eles têm.

Estava a imaginar como seria um espetáculo em que eu pusesse todas as matérias que foram criadas em ensaio mas que nunca entraram em um espetáculo. Todas misturadas, sem lógica entre elas, só um espetáculo com os restos, todos os restos. Tem uma questão na formulação.

Eu acho que talvez a beleza esteja aí, que eu acho que é impossível de todos os restos. Mas talvez a beleza esteja no cansativo. O cansativo é de ter todos.

Eu vou propor um jogo a partir disso que vocês falaram que é: cada uma de nós numa tentativa de descrever uma peça como se ela já tivesse acontecido. Colocar um gesto seu ou que tenha na memória dentro dessa peça. Eu acho que vou começar para ficar mais claro.

Tem uma pessoa que está atravessando o palco, no espaço, da esquerda para a direita. Ela está carregando uma pilha enorme de papéis. Ela vai jogando esses papéis para cima e tentando manter eles sem que eles caiam no chão. Então ela vai atravessando numa linha reta e o corpo todo desarticulado e jogando esses papéis para cima e tentando sustentar eles ao longo da trajetória. 

Não é esta mesa. Eu compro um saco de objetos e uma mesa e a um espectador que entra.

E eu larguei os objetos em cima da mesa depois de ti. 

Eu entro num contentor dentro de um barco ali no Tejo. E dentro desse contentor há uma casa montada e eu vou viajar de Lisboa até Riga, na Letónia.

Dentro desse contentor, a viver lá, a fazer a minha casa dentro do barco. E quando chega a Riga, esse contentor é colocado numa zona industrial e eu fico a viver lá durante um mês.

A mala preta com chão de madeira com muitos objetos que possuem vida, de carro de controle, brinquedos que se ligam e produzem mais coisas, que tem objetos que se mexem e que possuem uma vida específica.

Duas pessoas paradas durante uma hora e uma delas pega um microfone com um cabo muito longo e canta 29 minutos a música 29 beijos novos baianos. 

Ela mudou um pouco. Agora a gente está trazendo com as palavras alguma imagem que nunca foi ativada ou que foi ativada, mas não foi usada. Ou que a gente inventa, que a gente gostaria que ela tivesse existido ou que ela exista na nossa cabeça.

Eu sempre quis fazer um vestido de espelhos, pôr muitos fogos ao redor e dançar para que nunca se pudesse ver a dança fruto dos reflexos do espelho. E não podes ver a dança porque tem reflexos. 

Quando eu imaginei fazer o M, eu tinha imaginado se fosse possível distribuir MD pro público. E a experiência de ver a peça fosse também acompanhada de uma experiência coletiva com o MD. 

Para mim é relaxante. Eu não estou de cabeça para baixo. Eu sinto que viajei muito mais na minha imaginação.

Fica menos lógica. Eu sinto que desacelera muito, não é? Neste momento sim. Às vezes pode acelerar.

É, a noção do espaço também muda. E a presença também das vozes no espaço. Também dá outra noção.

Você sente de outra maneira a presença? Engraçado porque eu imagino. Mas é essa coisa da imaginação e da relação entre sobra e imaginação. Estava parceiro de uma coisa fascinante.

Porque nessa noção de imaginação eu estou imaginando sobras do futuro. Eu ia falar agora de uma peça que eu e a Márcia vamos fazer. E é quase como se fosse uma sobra também.

Porque na minha cabeça é como se fossem vários virtuais, que não estão organizados numa linha temporal. Sim, é uma compactação do tempo nas sobras, não é? Não, não interessa muito. O que aconteceu antes? O que aconteceu depois? Não é uma coisa cronológica.

Você foi sobra e pertence ao passado ou pertence ao futuro?

Vamos fazer. Qual é a coluna? A ideia da coluna é um pouco assim. Existe um pouco do dia e a coluna é assim.

A feijoada também, um pouco sobras do... É a partir da parte não nobre do porco. Ou é mais as tripas? As tripas vão dentro do mundo, mas tem um buraco e tem a pele. 

Não pensar também, o que é que sobra na relação com a memória? Estou a pensar que eu estou a apagar a Bíblia, né? E eu só apago a Bíblia à medida que vou lendo a Bíblia.

E eu não me lembro de quase nada do que li. E aquilo que vai sobrar a Bíblia, para mim, é muito pouca coisa. É muito pouca coisa literal, né? Vai sobrar, tipo a estrutura da Bíblia. A estrutura da Bíblia. Como se eu escrevesse uma Bíblia qualquer, pudesse escrever uma Bíblia qualquer.

E faz pensar que é bom ter coisas que são apagadas. É uma coisa que é bom apagar. Vocês são a favor de derrubar os monumentos? Sim, sim.

Eu não sei, nunca pensei sobre isso. Eu acho que é o monumento que sobra. Ah, que sobra.

Ah, que sobra. É liso, né? Mas dá para agarrar no monumento, cortá-lo aos pedaços, derrete-lo e transformá-lo em outra coisa com a mesma matéria metálica. Sim.

A gente começa a ver isso. Fundir o Marquês de Pombal, fundi-lo, fundi-lo, fundi-lo, e torná-lo numa... transformá-lo na Clarice Lispector. É, com certeza, alguma coisa ia acontecer com o material do Estado, né? Porque não tem fora.

Ai, gente, ai. É o que eles fazem. 

Acho que não abrimos os olhos. Acho que é fixe... Alguém tem uma ideia de como abrir os olhos? É. Para não ser só abrir? Sim. Uma proposta de abrir os olhos.

É? Então, se sentir em vez de abrir os olhos, a gente tapa os olhos de uma outra pessoa ou nada. Eu acho que eu prefiro tapar os meus.

Pode ser? Pode ser? Pode ser. Eu vou cobrir os meus, então. Mas abrimos os olhos com os olhos tapados? Para mim a proposta é um pouco essa.

Ah, o quê? Mas não é imposto. É assim. Então... Então... Vamos abrir os olhos com os olhos tapados e depois vamos muito lentamente afastando as mãos e deixando a luz entrar devagar.

Ok. Então a gente tá tapando os próprios olhos. Sim.

Vai abrindo devagar.