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ÚUltimamente me angustio se penso nas obras de meu trabalho, sempre me passou na realidade. Suponho que agora, depois de 10 anos de prática artÃstica consciente, me dou conta que as obras aumentaram, cada vez são mais, se acumulam como frustrações. As obras estão comendo a minha imaginação, são muitas obras, tantas que eu perdi a conta.
Estou tratando de fazer uma diferença entre o que é sobra, quer dizer, aquilo que realmente se desprende de uma investigação, porque ela não resulta útil, e aquilo que não consegues materializar por falta de recursos. Todo o que está presente na cena está condicionado pelos recursos económicos. A mina do capitalismo! Assim que me vejo obrigada a deixar em sobra, coisas que eram centrais, nucleares, medulares.
Eu queria fazer um caminho gigante, um túnel de terror, um site especÃfico peculiar, um bosque, uma série fotográfica com objetos a ponto de cair. Queria apresentar a minha obra num monumento histórico gigante, queria fazer um vestido de espelhos. Mas essas são obras ou são ideias não materializadas.
Tinham sentido em algum momento, mas deixaram de ter. Eu sou Symphony of the Seas e nem sequer tenho fotos vestida de sereia do mar. Outra coisa é pensar na última obra, e enumerar não o que ficou fora, mas sim, se materializou.
Fabricar uma ferida falsa com maquilhagem, fazer uma tatuagem de um dragão ao vivo, comer uma cenoura metida numa cama, cortar-me as unhas falsas, encontrar um jarro muito belo enterrado debaixo de terra, encontrar um anel de compromisso dentro de um pastel de Belém, misturar água com sal para fazer um pouco de mar, já que sou Symphony of the Seas e bebê-lo. Arrastar um foco de luz  pelo teatro, enquanto digo. Não! Não! Não! Não! Não! Colocar um placar que tem escrito drama, enquanto lhe digo: muito, muito, muito.
O ecologismo e, por tanto, anticapitalismo, pode construir-se através das obras. As obras, fazem aparecer novas formas de vida, pensam as ratazanas, por exemplo, que vivem de obras e se reproduzem nas obras. Através das obras se organizam vidas e comunidades inteiras.
Nós nos hormonamos com medicinas que são pensadas para os nossos corpos, nos hormonamos com as obras da medicina cis, talvez ser ecológico e anti-capitalista, de verdade, tomar estas obras e reorganizá-las, reapropriá-las, por em tensão o tempo de realizar algo que ficou no passado e que de repente vem a um futuro. Insistir, não deixar morrer, pôr no centro o anecdótico, o irrelevante.